Hepatologia

 Hipertensão Portal

A Hipertensão Portal é uma síndrome que afeta o sistema venoso portal, formado por veias que coletam o sangue da região do trato alimentarpara o fígado. Ela tem origem no aumento anormal da pressão na veia porta, que mede de 6 a 8 cm de comprimento, tem grosso calibre, e é formada pela junção das veias esplênica e mesentérica superior.

A veia porta recebe o sangue de todo o intestino, do baço, do pâncreas e da vesícula biliar e o destina ao fígado, onde é disseminado por pequenos canais que permeiam o órgão. O aumento da resistência vascular ao fluxo sanguíneo portal, que faz aumentar a pressão sanguínea na veia porta e caracteriza a síndrome da hipertensão portal, está associado à doença crônica do fígado, como cirrose hepática avançada ou a presença de esquistossomose.

Independente da causa, a fibrose é o principal componente do dano crônico ao fígado que se relaciona diretamente com a gravidade e o prognóstico da doença. Fibrose hepática e seu resultado secundário, a hipertensão portal, são atualmente vistos como um processo dinâmico que pode ser reversível em algumas situações se a causa for removida.

Estima-se que em 1997mais de 6 milhões de brasileiros estavam infectados pelo parasita da esquistossomose mansoni causador dessa doença. Pessoas que têm contato com água de fonte natural contaminada, nas regiões quentes e úmidas brasileiras, como no litoral e na zona da mata do Nordeste, são suas principais vítimas.

O homem é contaminado pela pele. Os esquistossómulos, como é denominada a forma do embrião do parasita que penetra o corpo humano, migram por vasos sanguíneos para os pulmões antes de atingir o fígado, o que ocorre após nove dias da contaminação. Até o 27o. dia da contaminação, eles permanecem nas veias do sistema porta em maturação, quando acasalam e descem para as veias mesentéricas, atingindo por seus ramos mais finos a submucosa intestinal.

Ali põem os ovos, que são eliminados pelas fezes humanas. Cada fêmea de S. mansoni põe cerca de 300 ovos por dia, dos quais apenas 25 a 30% são eliminados nas fezes. Os demais ficam retidos nos intestinos delgado e grosso e no fígado.

O órgão aumenta de tamanho, adquire nodulações grosseiras na superfície e é possível observar, na microscopia, a obstrução de pequenos ramos portais, produzida pela presença dos ovos e pelo processo infeccioso desencadeado por eles, denominados granulomas (pequenos nódulos no tecido, que lembram pequenos grãos ou grânulos).

Inicialmente a lesão é esparsa, mas sua natureza inflamatória vai formando com o tempo cicatrizes irregulares no fígado. Quem tem a lesão de natureza inflamatória apresenta em geral astenia (fraqueza muscular), anorexia (falta de apetite) e sensação de peso no abdome.

O tecido hepático que antes era saudável, de baixa resistência à passagem do sangue venoso, está doente, com depósitos de fibrose que o tornam de consistência endurecida e, portanto, dificultando a passagem de sangue que antes ocorria de forma fisiológica.

A outra causa mais comum da doença é o aumento da resistência ao fluxo sanguíneo no sistema porta causado pela cirrose hepática, que está associada ao alcoolismo ou a infecções virais. A cirrose hepática alcoólica acomete 15% dos alcoólatras crônicos. As infecções pelos vírus B  e C da hepatite causam cirrose hepática depois em seus portadores após o curso prolongado da infecção.

O aumento da resistência ao fluxo sanguíneo causado pelas cicatrizes que a cirrose vai produzindo no fígado, leva a alterações nas veias que alimentam o órgão. A hipertensão portal, decorrente da doença multiplica os vasos colaterais em alguns locais da região para conectar o sistema porta à circulação geral. No local em que essa vascularização colateral ocorre de forma mais importante, a extremidade inferior do esôfago, os vasos são tortuosos e congestionados como veias varicosas, daí a denominação de varizes esofágicas que caracteriza esse tipo de hipertensão portal.

O congestionamento dos vasos, que são muito frágeis, leva ao sangramento às vezes abundante na região, um sintoma grave quando não detectado e resolvido a tempo.

O aumento do volume do baço é uma das consequências desse tipo de hipertensão portal. Ele pode levar ao extravasamento de líquido para o interior da cavidade abdominal, um efeito denominado ascite, que causa a distensão do abdômen.

Quando é pequena a quantidade de líquido acumulada, o portador não apresenta sintomas. O depósito de volume grande de líquido, porém, pode causar desconforto e levar a dificuldade respiratória.

[EXPAND Referências Bibliográficas] 

  1. Kim, MY. et al. Invasive and non-invasive diagnosis of cirrhosis and portal hypertension. World J Gastroenterol 2014 April 21; 20(15): 4300-4315.
  2. Katz, N. et al. Análise crítica da estimativa do número de portadores de esquistossomose mansoni no Brasil. Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.33 n.3 Uberaba May/June 2000[/EXPAND]